Uma coisa me incomodou quando entrei no curso de Filosofia. A capacidade de muitos filósofos dizerem muita coisa, e, efetivamente, não dizerem quase nada. Enunciados carregados de palavras difíceis e conceitos obscuros. Um texto prolixo que dá 20 voltas para dizer uma coisa que poderia ser dita, ao invés de 40 páginas, em 5 linhas.
Quando se está acostumado com o jargão científico de laboratório, quanto menos você falar, melhor. E quanto mais preciso for, melhor ainda! Às vezes sinto falta disso em alguns filósofos, sobretudo naqueles eternos estudantes do passado e das coisas que não são mais.
Existe a falsa crença de que quanto mais você falar, quanto maior a quantidade de texto, mais você realmente falou. E isso é falso. É possível expressar proposições bastante complexas em linguagem natural valendo-se de expressões populares, tais como "estar na corda bamba" e "dar uma de João sem braço". E se perder em páginas e mais páginas simplesmente explicando que, para morrer, basta estar vivo.
Mas vejam, não crítico quem escreve desse jeito. Nós escrevemos para nós mesmos, como em solilóquios no papel, e possuímos intrinsecamente tal direito. O problema que aponto é que, ao se fazer uma atividade em que é preciso ter clareza e precisão no texto, para que o entendimento do seu interlocutor - pessoa que você quer comunicar a sua ideia - seja possível, escrever para si mesmo seria contraproducente. Talvez até uma contradição em termos.
Nas ciências, sobretudo nos enfadonhos relatórios de laboratório, é preciso registrar todos os passos metodológicos, os dados obtidos, materiais usados, enfim, uma completa descrição do que foi feito, do ponto de partida, até o resultado.
Ora, e por que na comunicação de textos seria diferente? Qual o problema de deixar claros todos os passo que me permitiram chegar a uma conclusão? E claros de tal forma que, mesmo estando numa área técnica, se compreenda exatamente o que o autor quis dizer?
Dadas tais indagações, eu lhes pergunto: o leitor que deve compreender o autor ou o autor que precisa se compreender para que o leitor o compreenda?
Muitos vão falar que nós, reles mortais sem doutorado, precisamos "pensar com o autor". Ler o que ele leu, imaginar o que ele viveu, praticamente reconstruir seu perfil psicológico e sua personalidade. Mas que audácia de certos filósofos! Querendo fazer o trabalho de psicólogos! Vamos deixar que os psicólogos cuidem dessa parte. Vamos voltar ao ponto.
Agora imagine que você, reles mortal, agora possui um doutorado. Leu tudo o que um autor leu, imaginou o que ele viveu, o entendeu como jamais se entenderia. Ao ler o texto do autor indecifrável o consegue decifrar. Quase como tocar uma música que somente você, e poucas pessoas no mundo, sabem ler a partitura e a executá-la com perfeição.
Agora, você, reles mortal, ao estudar um autor, filósofo ou seja lá o que, se presta como um discípulo de tal figura. Se confunde com a mesma. Ora, ser mortal, abrir mão de sua mortalidade para cultuar figuras do passado que, mortas já estão, e que seu nome e obra são só um eco no tempo. Cuja autoridade só se cultua em certos meios estritos e seletivos. Pois bem, agora você possui a autoridade de falar sobre fulano. Parabéns! Veja só! Você conseguiu alguma coisa nessa sua reles vida mortal. Você é, agora, um discípulo de um imortal, um ser humano que ascendeu aos planos mais elevados da existência!
Mas veja só, reles mortal. Todos nós somos seres humanos, primatas potencialmente racionais. Cheios de falhas e contradições. Mas, jamais o seu autor que dedicou a sua vida inteira. Muito menos você. Como alguém que pensa como um imortal pode ser equiparado a essa corja de primatas que não leram o que eu li! Jamais! Jamais!!!!!!!!
Mas agora, caro mortal, eu lhe indago, para achar que tais elucubrações teóricas e masturbações mentais sobre coisas óbvias são realmente dignas de sua energia mental, o quanto você teve que deixar de entender a si próprio?
O quanto você fugiu da sua solidão buscando um abraço afetuoso do autorzinho do seu coração? Ora, em quantos momentos, você, ao se sentir incompreendido tentou compreender o incompreendido?
Aos colegas que ainda não perceberam a caricatura que construí, explicarei-me. A minha tese é a seguinte: alguém que exalta um texto hermético é incapaz de compreender o ponto que se partiu e o ponto que se quer chegar. Mas, não só isso, mas em como foi feito. Os passos que se é preciso para compreender um pensamento, proposição, ou, para ser mais preciso, os passos inferenciais que foram precisos para chegar a uma conclusão.
Entretanto, alguns vão me objetar. Tudo bem, e o que isso tem haver com a caricatura que construiu? Pois bem, meu caro, está caricatura é o interlocutor. Mas um tipo específico. Aquele que é incapaz de compreender que passos inferências envolvem a clareza e a compreensão do pensamento. E o que quero apontar aqui é que isso envolve fatores psicológicos na compreensão de um texto.
Vamos supor, agora, o contrário. Alguém que é capaz de expressar com clareza tudo o que sente, tudo o que pensa e todas as inferências que faz. Dada essa descrição, imagino um pessoa de caráter prático. Aquela que sabe onde quer chegar, de onde vai partir e como vai fazer isso.
Ora, o que fiz aqui foi descrever os passos inferências que se costuma justificar os métodos de leitura de certos textos e de certas práticas em filosofia. Em resumo, argumentos baseados na autoridade e no terror psicológico. Na razão? Bem, isso é coisa de neoliberal positivista!
Já me alonguei demais, tenho receio que possam me printar e me plagiar, então vou encerar. Logo, a postura prolixa de certos indivíduos decorre da sua incapacidade de auto-compreensão.