quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mesmo filósofos, ainda somos primatas.

Uma coisa me incomodou quando entrei no curso de Filosofia. A capacidade de muitos filósofos dizerem muita coisa, e, efetivamente, não dizerem quase nada. Enunciados carregados de palavras difíceis e conceitos obscuros. Um texto prolixo que dá 20 voltas para dizer uma coisa que poderia ser dita, ao invés de 40 páginas, em 5 linhas.

Quando se está acostumado com o jargão científico de laboratório, quanto menos você falar, melhor. E quanto mais preciso for, melhor ainda! Às vezes sinto falta disso em alguns filósofos, sobretudo naqueles eternos estudantes do passado e das coisas que não são mais.

Existe a falsa crença de que quanto mais você falar, quanto maior a quantidade de texto, mais você realmente falou. E isso é falso. É possível expressar proposições bastante complexas em linguagem natural valendo-se de expressões populares, tais como "estar na corda bamba" e "dar uma de João sem braço". E se perder em páginas e mais páginas simplesmente explicando que, para morrer, basta estar vivo.

Mas vejam, não crítico quem escreve desse jeito. Nós escrevemos para nós mesmos, como em solilóquios no papel, e possuímos intrinsecamente tal direito. O problema que aponto é que, ao se fazer uma atividade em que é preciso ter clareza e precisão no texto, para que o entendimento do seu interlocutor - pessoa que você quer comunicar a sua ideia - seja possível, escrever para si mesmo seria contraproducente. Talvez até uma contradição em termos.
Nas ciências, sobretudo nos enfadonhos relatórios de laboratório, é preciso registrar todos os passos metodológicos, os dados obtidos, materiais usados, enfim, uma completa descrição do que foi feito, do ponto de partida, até o resultado.

Ora, e por que na comunicação de textos seria diferente? Qual o problema de deixar claros todos os passo que me permitiram chegar a uma conclusão? E claros de tal forma que, mesmo estando numa área técnica, se compreenda exatamente o que o autor quis dizer?

Dadas tais indagações, eu lhes pergunto: o leitor que deve compreender o autor ou o autor que precisa se compreender para que o leitor o compreenda?

Muitos vão falar que nós, reles mortais sem doutorado, precisamos "pensar com o autor". Ler o que ele leu, imaginar o que ele viveu, praticamente reconstruir seu perfil psicológico e sua personalidade. Mas que audácia de certos filósofos! Querendo fazer o trabalho de psicólogos! Vamos deixar que os psicólogos cuidem dessa parte. Vamos voltar ao ponto.

Agora imagine que você, reles mortal, agora possui um doutorado. Leu tudo o que um autor leu, imaginou o que ele viveu, o entendeu como jamais se entenderia. Ao ler o texto do autor indecifrável o consegue decifrar. Quase como tocar uma música que somente você, e poucas pessoas no mundo, sabem ler a partitura e a executá-la com perfeição.

Agora, você, reles mortal, ao estudar um autor, filósofo ou seja lá o que, se presta como um discípulo de tal figura. Se confunde com a mesma. Ora, ser mortal, abrir mão de sua mortalidade para cultuar figuras do passado que, mortas já estão, e que seu nome e obra são só um eco no tempo. Cuja autoridade só se cultua em certos meios estritos e seletivos. Pois bem, agora você possui a autoridade de falar sobre fulano. Parabéns! Veja só! Você conseguiu alguma coisa nessa sua reles vida mortal. Você é, agora, um discípulo de um imortal, um ser humano que ascendeu aos planos mais elevados da existência!

Mas veja só, reles mortal. Todos nós somos seres humanos, primatas potencialmente racionais. Cheios de falhas e contradições. Mas, jamais o seu autor que dedicou a sua vida inteira. Muito menos você. Como alguém que pensa como um imortal pode ser equiparado a essa corja de primatas que não leram o que eu li! Jamais! Jamais!!!!!!!!

Mas agora, caro mortal, eu lhe indago, para achar que tais elucubrações teóricas e masturbações mentais sobre coisas óbvias são realmente dignas de sua energia mental, o quanto você teve que deixar de entender a si próprio?
O quanto você fugiu da sua solidão buscando um abraço afetuoso do autorzinho do seu coração? Ora, em quantos momentos, você, ao se sentir incompreendido tentou compreender o incompreendido?

Aos colegas que ainda não perceberam a caricatura que construí, explicarei-me. A minha tese é a seguinte: alguém que exalta um texto hermético é incapaz de compreender o ponto que se partiu e o ponto que se quer chegar. Mas, não só isso, mas em como foi feito. Os passos que se é preciso para compreender um pensamento, proposição, ou, para ser mais preciso, os passos inferenciais que foram precisos para chegar a uma conclusão.

Entretanto, alguns vão me objetar. Tudo bem, e o que isso tem haver com a caricatura que construiu? Pois bem, meu caro, está caricatura é o interlocutor. Mas um tipo específico. Aquele que é incapaz de compreender que passos inferências envolvem a clareza e a compreensão do pensamento. E o que quero apontar aqui é que isso envolve fatores psicológicos na compreensão de um texto.

Vamos supor, agora, o contrário. Alguém que é capaz de expressar com clareza tudo o que sente, tudo o que pensa e todas as inferências que faz. Dada essa descrição, imagino um pessoa de caráter prático. Aquela que sabe onde quer chegar, de onde vai partir e como vai fazer isso.

Ora, o que fiz aqui foi descrever os passos inferências que se costuma justificar os métodos de leitura de certos textos e de certas práticas em filosofia. Em resumo, argumentos baseados na autoridade e no terror psicológico. Na razão? Bem, isso é coisa de neoliberal positivista!

Já me alonguei demais, tenho receio que possam me printar e me plagiar, então vou encerar. Logo, a postura prolixa de certos indivíduos decorre da sua incapacidade de auto-compreensão.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Auto repressão, esterilidade intelectual e filosofia - o propósito do Blog

Somente em um ambiente democrático e em que seja presente a  liberdade intelectual é que se pode construir debates e fazer avançar o conhecimento, inclusive o filosófico. O dialogo é uma ferramenta importante para isso, pois são as relações interpessoais que possibilitam haver uma troca de ideias e o desacordo entre elas. E o desacordo entre ideias só é possível em um lugar em que os interlocutores possam defender suas teses e rebater as teses dos outros. Sem que haja agressão ou qualquer tipo de punição.

As redes sociais permitiram trocas de ideais nunca antes possível. É possível conhecer àqueles que defendem que a Terra é plana ou que acham que os Reptilianos dominam os governos por de trás de lideres mundiais sádicos e corruptos, ou até aqueles que chegam ao ridículo de defender teses negacionistas sobre uma série de genocídios e violências cotidianas. Sinceramente não quero entrar nos pontos epistemológicos de tudo isso e rebater a pós-verdade, os fatos alternativos, ou as vivências de cada um que defende o que acha certo. Muito menos, entrar no debate ético sobre os limites e implicações da liberdade de expressão. Meu ponto é o seguinte: somente em um ambiente que permita a liberdade de ideias é que permite as pessoas exporem o que realmente pensam. 

Ao expor o que realmente pensam, elas entram em conflito com outras pessoas que eventualmente pensam diferente em relação uma as outras. Isso é até óbvio, eu diria, mas acho que é relevante esse fenômeno pelo motivo de que permite o que disse antes, o desacordo. E isso não parece tão óbvio.

O desacordo é o encontro entre dois tipos de teses sobre um assunto, em que os dois lados defendem uma tese diferente, por exemplo, em um debate X, o interlocutor 1 defende P e o interlocutor 2 defende nP. Assim, cada interlocutor tem a certeza de que está mais certo que o outro, a primeiro momento, no início do debate. Entretanto, no embate entre os argumentos, na plausibilidade das premissas e na sua relevância para sustentar os argumentos, o interlocutor 1 percebe que está errado sobre X e que o interlocutor 2 oferece melhores argumentos e razões em sua defesa. Ora, o debate terminaria, e o desacordo, com o interlocutor 1 cedendo à posição do interlocutor 2 e dizendo que precisa reconsiderar ou refletir sobre o assunto - num cenário ideal, claro. 

Mas imagine que nesse diálogo ou debate sobre certas teses, um dos interlocutores defenda uma posição que é contra o status quo do ambiente. Para ficar mais claro, imagine que há um debate sobre os limites da ação policial, e um dos participantes defenda que a policia deve matar todo mundo que desobedeça a lei. Imagine que esse debate se passa numa escola de ensino médio. Provavelmente, quem afirmar essa tese irá chocar todos no debate. E o que fazer diante desse tipo de situação? Há um desacordo claro, mas ele não é simplesmente teórico: ele fere a moral e os bons costumes; fere a sensibilidade dos colegas no debate. Cria-se uma situação de conflito que, ao invés de se seguir num nível racional, o debate parte para um nível emocional. Não se argumentará mais sobre o ponto em si, que é sobre os limites da ação policial, mas se debaterá sobre a tese aparentemente absurda que foi inicialmente proposta por um dos participantes.

Agora imagine que após a tese polêmica  proposta, o participante que a enunciou é simplesmente expulso do debate antes de apresentar as suas razões para sustentar tal afirmação. Toda essa situação desencadeará uma corrente de ódio e agressão, que provavelmente se perpetuará e o individuo polêmico ficará cada vez mais polêmico e ressentido nos debates vindouros. O que quero chamar atenção é o seguinte: quando um desacordo entre teses é resolvido de forma não-intelectual ou de forma autoritária se causa efeitos psicológicos relevantes e talvez negativos nos interlocutores, tanto os sensibilizados quanto aqueles que são eventualmente ofendidos. E acredito que sejam semelhantes entre os dois. Tanto o sensibilizado fica ressentido com o que o ofendeu, quanto quem o ofendeu fica ressentido com quem se sensibiliza e quem concorda com quem ofende se coaduna com este contra o sensibilizado, enfim, criando um conflito e uma mixórdia de afetos negativos.

Como não sou psicólogo, me limito a relatar minhas experiências pessoais e de pessoas próximas. Os efeitos que pude perceber é que tais situação de conflito mal administradas faz com que se desenvolva um medo latente de expressar uma opinião ou tese sobre alguma coisa.

Agora imagine um diálogo interno, uma espécie de solilóquio de um individuo consigo mesmo. Ao refletir sobre um assunto, o individuo pensa sobre X, tal que X corresponde a solução para um problema Y. Entretanto, durante o processo de reflexão, outra solução corresponde ao problema Y, que é Z. Entretanto, o conteúdo da solução Z é extremamente desafiadora e considerada impossível por muitos especialistas no problema Y. Ora, se ao propor Z para a resolução do problema Y causar o mesmo tipo de reação descrita acima no debate hipotético, então o individuo realmente se debruçará em investigar a resolução Z do problema Y? Dificilmente.  Não haverá muitos incentivos.

Agora imagine que o individuo comece a apresentar um comportamento tal que ele se repreende para cada inferência mais arriscada que é capaz de fazer para resolver algum problema ou questão. Tal individuo começará a se repreender de tal forma como foi repreendido no exemplo do debate. Suas ideias vão ficar confinadas ao que status quo do ambiente permite; fugirá de toda sorte de conflitos e seu medo o fará desistir de tudo que pense originalmente.

Espero que tenham consciência que o que descrevi aqui é o que acontece em muitas escolas. Alunos com impeto por debates, apesar de despreparados para eles, são violentamente coagidos e silenciados por entidades e profissionais autoritários. Sou veemente contra isso! Diga NÃO a esterilização intelectual! NÃO a auto repressão de ideias! Só assim a filosofia irá florescer no nosso país! (Um dia farei um post mais completo sobre isso).

O objetivo do blog é causar debates filosóficos. Como a internet permite um ambiente livre e seguro, cuja a única autoridade a ser respeitada é a autoridade da razão e da lógica, me debruçarei em justificar e apresentar as ideias mais ousadas e as minhas loucas inferências que penso durante o decorrer do meu dia-a-dia.


Atenciosamente, aos leitores,

Ivan. 












Mesmo filósofos, ainda somos primatas.

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